A inteligência artificial deixou de ser um “assunto de TI” e passou a ocupar espaço permanente na agenda de conselhos e diretoria, especialmente em setores de manufatura, agro e energia. Pesquisas com executivos divulgadas por veículos como Exame e EY mostram que a maioria dos CEOs brasileiros espera um impacto decisivo da IA nos negócios até 2027, tanto na redução de custos quanto na criação de novas fontes de receita.
Nesse contexto, a pergunta central deixa de ser “se” a empresa vai adotar IA e automação avançada e passa a ser “como” essa adoção será conduzida – e por quem. A resposta passa diretamente pelas competências de liderança: a tecnologia, sozinha, não transforma negócio.
Este artigo complementa o conteúdo já publicado sobre
cultura de inovação na indústria, que aborda ambiente, times e esteiras de inovação.
Aqui, o foco está em quais competências líderes precisam desenvolver até 2027 para conduzir, com responsabilidade e velocidade, a transformação impulsionada por IA e automação.
O que significa liderar na era da IA?
Liderar na era da IA é diferente de liderar em ciclos anteriores de tecnologia. Não se trata apenas de aprovar investimentos em sistemas mais modernos, mas de redefinir como decisões são tomadas, como o trabalho é distribuído entre pessoas e algoritmos e como a empresa aprende continuamente com dados.
Na prática, isso significa que o líder precisa:
Se, no conteúdo sobre cultura de inovação, o SiDi aponta caminhos para criar times preparados para o futuro, aqui olhamos para o indivíduo que influencia diretamente esses times: a liderança.
Por que a IA transformou o papel da liderança?
Segundo o Future of Jobs Report , do Fórum Econômico Mundial, cerca de 44% das competências profissionais atuais devem ser transformadas até 2027, impulsionadas por IA, automação e novos modelos de negócio. Isso vale ainda mais para quem ocupa posições de liderança.
Algumas mudanças estruturais explicam essa pressão:
Em outras palavras, a liderança passa a ser medida não apenas pela capacidade de “fazer mais com menos”, mas pela capacidade de unir IA, pessoas e governança em uma mesma agenda.
Quais são as competências críticas de liderança?
Diversos estudos sobre competências do futuro, incluindo pesquisas com empresas brasileiras e internacionais, convergem em alguns blocos de habilidades que ganham relevância em um cenário de IA e automação. Para líderes de indústria, agro e energia, destacam‑se seis grandes grupos.
1. Visão estratégica de IA e automação
Líderes não precisam ser especialistas técnicos, mas precisam desenvolver a alfabetização em IA suficiente para tomar boas decisões de investimento e priorização. Isso inclui:
2. Pensamento crítico e julgamento ético
À medida que mais decisões são apoiadas por algoritmos, cresce a importância do pensamento crítico e do julgamento ético na liderança. Competências-chave aqui são:
Essa capacidade crítica é o que garante que a IA seja usada como apoio à decisão, e não como substituto do discernimento humano.
3. Empatia e gestão de mudanças
Reportagens recentes sobre o avanço da IA no trabalho apontam que a tecnologia está “testando” a liderança nas empresas, principalmente pela forma como as mudanças são comunicadas e geridas. A adoção de IA e automação mexe com medos e identidades profissionais: medo de perder o emprego, medo de não conseguir aprender, medo de ser substituído por máquinas. Líderes precisam ser capazes de:
Para implementar uma cultura de inovação na organização, um ambiente psicológico seguro é importante para que as pessoas proponham e testem ideias. A liderança empática é o que sustenta esse ambiente em momentos de transformação acelerada.
4. Curiosidade, aprendizado contínuo e abertura ao experimento
Relatórios sobre competências do futuro e pesquisas com RH apontam que aprendizagem ativa, curiosidade e adaptabilidade estão entre as habilidades mais demandadas até 2027. Para líderes, isso se traduz em:
Essa mentalidade de “testar, aprender, ajustar” é especialmente importante em iniciativas de IA, que exigem ciclos de hipótese, prototipagem, ajuste de modelos e escalabilidade.
5. Fluência em dados
Pesquisas sobre habilidades para 2027 destacam o letramento em dados como uma das competências centrais para profissionais e líderes. Não é preciso ser cientista de dados, mas é fundamental que líderes desenvolvam fluência em dados para dialogar com equipes técnicas e tomar decisões embasadas. Isso envolve:
Sem essa fluência, líderes correm o risco de confiar demais em modelos mal calibrados ou, no extremo oposto, de rejeitar soluções robustas por falta de entendimento.
6. Colaboração multidisciplinar e construção de pontes
Por fim, estudos de casos em indústria 4.0 mostram que iniciativas bem-sucedidas de IA e automação avançada são, quase sempre, resultado de colaboração entre áreas de negócio, operações, TI, dados, jurídico e risco. A liderança precisa saber:
Essa capacidade de “construir pontes” é o que transforma IA em capacidade organizacional, e não em ilha tecnológica.
Como desenvolver líderes “AI‑ready” na prática
Competências não se constroem apenas com leitura; elas emergem de experiências deliberadas, especialmente quando conectadas a desafios reais. Algumas alavancas que empresas industriais têm utilizado:
Projetos reais com participação ativa da liderança
Em vez de manter iniciativas de IA e automação exclusivamente isoladas em áreas técnicas ou núcleos de inovação, as organizações que avançam mais rápido têm adotado uma postura de colaboração direta. Isso se traduz na prática através de dois movimentos principais:
Essa imersão direta dos gestores no ciclo de vida dos projetos é fundamental para desmistificar a tecnologia, permitir uma avaliação mais realista do potencial de ganhos e assegurar que as soluções entreguem, de fato, os benefícios esperados para a operação.
Programas de desenvolvimento específicos para liderança
Outra frente é criar programas de desenvolvimento focados em liderança na era da IA, com módulos como:
Esses programas se conectam diretamente à visão de cultura de inovação na indústria, em que líderes protegem tempo e recursos para experimentação, reconhecem esforços inovadores e fomentam ambientes colaborativos.
Comunidades internas de prática e aprendizagem entre pares
Por fim, empresas têm criado comunidades internas onde líderes:
Isso reforça a ideia de que IA e automação são temas da organização inteira, e não de uma única área.
Perguntas que todo líder pode começar a fazer hoje
Para transformar a teoria em prática, a liderança deve incorporar questionamentos estratégicos na rotina de reuniões de time, comitês de investimento e conversas com áreas técnicas. A eficácia da adoção tecnológica começa pela capacidade de provocar reflexões profundas sobre o papel da inovação na organização:
Refletir sobre esses pontos ajuda a alinhar estratégia, tecnologia e pessoas de maneira coesa. Para gestores que desejam se aprofundar em como esses temas se conectam no mercado atual, o acesso constante a tendências e reflexões sobre inteligência artificial é um exercício valioso para manter a visão estratégica sempre atualizada.
Caminhos práticos para empresas industriais, agro e de energia
Para empresas que já estão trabalhando cultura de inovação, o próximo passo natural é estruturar uma agenda clara de desenvolvimento de liderança para a era da IA.
Alguns movimentos concretos incluem:
Ao fazer isso, a organização não apenas adota IA e automação – ela forma lideranças capazes de transformar essas tecnologias em vantagem competitiva, com responsabilidade e foco em pessoas.
O papel do SiDi no apoio às organizações
Para apoiar essa jornada, o SiDi atua como um dos principais Institutos de Ciência e Tecnologia (ICTs) do Brasil, com mais de 20 anos de história e mais de mil projetos de P&D e inovação em áreas como Inteligência Artificial, Data Science, IoT e Segurança Cibernética. A partir dessa experiência, o instituto ajuda organizações a transformar cultura de inovação em prática, combinando diagnóstico de maturidade, construção de roadmaps de IA e automação, desenvolvimento de soluções sob medida e uso de leis de incentivo para viabilizar projetos em setores como manufatura, óleo e gás, energia e agronegócio.